27/10/2025
Recordo-me de, em pequeno, ouvir uma frase:
“Tudo o que é demais, é exagero.”
Dizia a minha mãe quando eu queria mais de algo que me fazia bem, jogar à bola ou comer doces.
Mas o que é “demais”?
Como sabemos que passámos esse limite?
Não há uma resposta simples.
Esses limites não são fixos, variam ao longo da vida e entre cada um de nós.
O problema surge quando a nossa vida passa a estar regulada e dependente desses actos.
Aí, a diversão transforma-se em prisão.
O que leva a que um prazer se torne numa dependência pode estar relacionado com fatores genéticos ou ambientais, mas independentemente da questão “nature-nurture”, todos estamos vulneráveis a isso.
Ao ler este estudo, senti que ele coloca em palavras o que muitos de nós já viram acontecer: cães que não sabem estar sem o brinquedo, geralmente uma bola, abdicando de tudo em função desse objeto.
Ladram, saltam para cima de nós, mordem, só para voltar a ter acesso ao brinquedo.
Achamos divertido e dizemos que ele gosta do brinquedo, mas será?
Conheço casos de colapsos momentâneos, assim como vómitos, resultantes de uma excitação demasiado elevada, e, por vezes, percebidos pelos tutores como algo normal. Podendo não ser dependência nestes casos, o facto de ser recorrente não significa que seja normal.
Não se trata de julgar, mas de olhar com atenção para o que fazemos todos os dias com os nossos companheiros.
Talvez ele até goste desse objeto, mas terá oportunidade de escolher outro tipo de interação e de atenção?
Por vezes, essa é a única escolha e forma de atenção que têm.
Há uma ideia generalizada de que um cão excitado é um cão feliz, mas isso nem sempre é verdade.
A felicidade não depende do nível de excitação.
Brincar com uma bola não torna, por si só, um cão dependente.
Mas quando há bola, a brincadeira deveria ser mais do que atirar, correr e repetir.
Deveria ser um momento de partilha, ligação e relaxamento depois, não apenas um reflexo automático de atirar e ir buscar.
Brincar é uma atividade importante, cria bem-estar e fortalece a ligação e a confiança.
Mas não deveria ser a origem de um desequilíbrio emocional.
Que brincadeiras gosta de fazer com o seu companheiro?
Referência
Mazzini, A., Senn, K., Monteleone, F. et al. Addictive-like behavioural traits in pet dogs with extreme motivation for toy play. Sci Rep 15, 32613 (2025). https://doi.org/10.1038/s41598-025-18636-0